Viver 68


Certamente o Maio de 68 parisiense é um dos eventos mais pensados e interpretados do pós-Segunda Guerra Mundial. Dessa batalha interpretativa surgem dois lados bem definidos e inconciliáveis: para quem, como Mário Vargas Llosa, acredita que a ruína dos nossos tempos nasce dos eventos ocorridos no Quartier Latin – que teriam colocado no chão categorias e hierarquias fundamentais para a existência de sociedades organizadas –, Maio de 68 foi vitorioso; para os que entendem, como eu e você, que a desagregação e miséria dos nossos tempos é fruto da vitória da ordem e da repressão que sufocaram o levante parisiense, e da manutenção de estruturas anacrônicas de poder, o alegre e vibrante Maio de 68 terminou derrotado. Para os primeiros, portanto, as consequências do levante são concretas e evidentes, para nós trata-se de um desejo que ficou no ar (sem jamais aterrissar). Desse imbroglio, que tem mil nuances dentro de cada grupo, surge a interpretação da interpretação da interpretação sem fim do Maio de 68! O verdadeiro sentido estaria cada vez mais no fundo. E o fundo nunca chega e, sobre ele, uma crosta de palavras e modelos explicativos vão petrificando aquela experiência tão rara. Homens e mulheres se convertem em símbolos, praças em palcos, protagonistas em heróis e, finalmente, palavras de ordem em clichês. Mas como escapar dessas interpretações todas e se aproximar um pouco e, mesmo que de segunda mão, do vivido e sentido em 68? Uma forma é a leitura de Um ano depois, de Anne Wiazemsky (editora Todavia). Livro-testemunho de quem esteve lá, Anne lança mão de uma forma narrativa por assim dizer anti-interpretativa: narrar o vivido na sua materialidade mais cotidiana e imediata. Em vez de refletir sobre os acontecimentos com as proteções e garantias da distância histórica, ou enfiar a posteriori um narrador sabe-tudo na trama do passado, ela conta o vivido. E a gente lê-vive junto. Os detalhes aparentemente mais banais são o tesouro narrativo do livro. Desde o que ela comeu no café da manhã em um dos dias decisivos para os revolucionários até o bronzeado obtido em um período fora de Paris, passando por detalhes de restaurantes e cafés, óculos quebrados, porres, patinação, fugas da policia, telefonemas e muito rádio ligado. É tudo tão “natural” e “real” que até mesmo Godard (no livro apenas Jean-Luc) e Deleuze são o que também de fato são: dois homens atropelados pelos acontecimentos e não gênios capazes de nos dizer o porquê de tudo. Vale reproduzir o diálogo dos dois após ouvirem no rádio as notícias de que na madrugada passada o movimento havia se radicalizado:

"– E se fosse o apogeu do movimento estudantil? – perguntou Deleuze.

Ele lançou a pergunta ao vento, mas na verdade se dirigia a Jean-Luc.

– Não sei.

– Mas o que acha? – insistiu Deleuze.

– Justamente, não sei mais o que pensar."

É óbvio que a narrativa de Anne Wiazemsky de natural não tem nada. Trata-se de elaboração formal sofisticada e consciente de seu papel e seus objetivos. Descer ao material foi a mesma estratégia encontrada por Primo Levi para nos transportar para o vivido em um campo de concentração nazista no clássico É isto um homem?. Livros diferentes, mas que guardam em comum uma certa desconfiança da própria subjetividade formada e deformada no tempo histórico. Maio de 68 detonou movimentos por todo o mundo. Nos Estados Unidos uma outra jovem vivia os reflexos tardios do levante parisiense e também nos transportaria anos mais tarde para lá por meio de um livro: Só garotos (Companhia das Letras). Patti Smith encontrou uma Nova York já lidando com os escombros da contra-cultura e da liberdade prometida pelos movimentos dos anos 1960. Vale notar que a norte-americana usa o mesmo recurso de Wiazemsky de se apoiar na materialidade do dia a dia para evitar mistificações (o que não falta sobre o período). As duas autoras também lançam mão da mesma estratégia anti-subjetiva de eleger um terceiro como uma espécie de guia nas andanças. Godard e Mapplethorpe vão à frente mas jamais são protagonistas das narrativas. Assim como outros detalhes concretos dos dois livros, o cineasta e o fotógrafo garantem a materialidade como eixo estruturador da forma artística. As autoras não procuram entrar na cabeça deles, mas contar ao lado deles. Nos dois livros a subjetividade escorre pelo concreto sem que notemos.

Escrever qualquer linha a mais sobre o livro de Anne Wiazemsky seria trair a hipótese apresentada aqui de um livro que escapa de interpretações. Seria iniciar mais um mergulho analítico usando o texto para apenas comprovar uma teoria qualquer. Ou seja, seria não ler de fato o livro.

Vale a pena esquecer as interpretações (se for possível) para viver Um ano depois.

**

Tiago Ferro é escritor, autor de O pai da menina morta (2018), e editor da e-galáxia e da revista de ensaios Peixe-elétrico. Nasceu em 1976 em São Paulo, onde vive.

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