Crepúsculo

Eduardo Suplicy é daquelas figuras cuja morte não gosto nem de imaginar. Entre outras razões porque ele sempre me lembrou um pouco meu pai, e a memória dessa semelhança me ocorreu de novo há alguns dias, quando, dentro da Câmara Municipal de São Paulo, durante votação da Reforma da Previdência dos servidores, ele impedia com braços vigorosos que uma funcionária fosse tirada à força da sala pela Guarda Metropolitana. Como o ex-senador, meu pai tinha uma ingenuidade que em certos momentos se revelava só em aparência autista, sendo mais uma espécie de posto de observação destacado do ambiente social, ao qual ele era alheio muitas vezes, não sem provocar um pouco de vexame em nós pelas risadinhas, sobretudo masculinas, que alguns mal reprimiam em vista das inúmeras distrações que cometia. No velório de sua morte, no entanto, me chamou a atenção a quantidade de pessoas além do normalmente prevista e entre elas a quantidade de homens inconformados. E eram muitos os que choravam, o que criou um enigma para mim que não tive dificuldade em resolver, ou pelo menos me satisfez a resposta que achei para além da constatação da possível culpa que alguns sentissem: não sendo alguém que falasse mal das pessoas (parecia distante demais para isso, além de não ter essa inclinação) ou a quem se pudesse confessar segredos (parecia metido demais com seus pensamentos e no meio destes o segredo se perderia e seria esquecido, mais do que gostaria quem o confessa, ainda que o não quisesse divulgado), mas, justamente porque fosse correto e justo nas grandes e nas pequenas situações e, como já disse, pudesse de súbito romper seu alheamento, vir à tona da conversa e emitir um juízo de muita lucidez, mostrando um tipo de atenção mais rara e profunda, ele devia parecer superior aos homens mais condizentes com o padrão de normalidade social e mesmo psíquica, resguardando uma espécie de pureza que eles talvez admirassem e mesmo invejassem por não terem sido capazes de preservá-la na luta que em geral se trava para construir a própria masculinidade e maturidade e êxito profissional e, com ela, às vezes a duplicidade ou a maldade também; mas, se o invejavam, pensava, isso era ainda sinal neles de sensibilidade e disponibilidade, embora aquela mesma pureza não tornasse meu pai tão requisitado ou desejável socialmente, em festas ou em rodas, e pudesse levar a gracejos. Os parentes para quem fosse estranho o vocabulário psicanalítico diziam que ele era muito “detalhista”, o que seu hábito de procrastinar só fazia ver melhor.

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Lhano, tímido e distraído, não tinha puxado ao pai, que era militar e fora quando jovem um quadro do Partido Integralista, mas devia à mãe o que tinha de tolerância e suavidade – pelo que me diziam, pois não conheci nem um nem outro – e, porque o melhor de sua vida parecia ter ocorrido até o começo dos anos 60, quando perdeu a mãe, também a memória que fazia da política e da história do país tinha encontrado aí o seu marco de ouro. Era para essa época que sempre voltava e para seus mitos, pois os tinha, e alguns destoavam entre si, Getúlio Vargas, Juscelino, Kennedy, Marilyn Monroe, Brando, Jane Fonda, Carlos Lacerda (“tradutor de Shakespeare!”), Prestes. Quando li o romance Panamérica, de José Agrippino de Paula, que fora seu vizinho de rua na adolescência e que, conforme sempre dizia, nunca mais tinha sido o mesmo depois da morte do pai, vi que eu estava tendo acesso ao material mitológico de uma certa geração, sobre o qual tinha se formado também o Seu Durval. Mas este, afora o fascínio pelo cinema americano e pelo futebol, era menos pop e fora mais amigo do irmão de Agripino, que me dava a impressão pelos relatos de ser mais formal, como outro amigo, que ainda morava na sua rua, um físico da USP, que em certo momento teve um colapso nervoso e também nunca mais veio a ser o mesmo. Eu o via às vezes interrompendo uma de suas inúmeras voltas diárias no quarteirão para conversar com meu pai, que repetia a seu respeito depois: “É, é uma pena, ele não deu certo, e era genial”. Uma vez, depois de voltar de uma visita a Agripino em Embu das Artes, comentou que ele parecia “parado no tempo” e passava quase o dia inteiro debruçado na janela que dava para o passeio público. Eu pensava às vezes que a sua rua desde a infância era a rua dos homens “parados no tempo” ou interrompidos, dos homens que não realizaram suas potencialidades maiores em razão de alguma catástrofe particular. Em todo caso, ele adorava conversar e, por alguma arte sutil ou por uma astúcia que a obsessão tinha ensinado, não havia assunto abordado que não desaguasse nas figuras admiradas na juventude, nem que para isso demorasse um pouco pela distância entre o tema presente e os de sua predileção, e, quando finalmente ele chegava à outra margem, eu retinha a respiração para logo dar um suspiro resignado, quando não ficava brava. Nem sempre tínhamos paciência – ele vinha aderente à conversa, no mesmo plano que nós e, por uma leve distração, nossa ou dele, começava a flutuar como um balão e escapava para seus deuses, ou sua infância, ou sua mãe; ele o fazia em geral não por uma ruptura drástica (a não ser quando estivesse muito ansioso), mas por uma impressionante capacidade de associação, que o ia fazendo deslizar aos pouquinhos e sem nos darmos conta, e creio que ele também não, para aquele lugar de onde de fato a sua vida parecia retirar sentido e calor. O seu autismo, no entanto, tinha às vezes o efeito de um “o rei está nu!”. Quando acabamos de ver o filme Tropa de elite, do qual ele não tinha lido nada até então, o único comentário que fez, com muito espanto, saindo do seu sono (já então cochilava vendo filmes, aquilo que mais gostava de fazer na vida além de conversar e assistir aos jogos do seu idolatrado Corinthians): “Mas então a polícia tortura ainda? Isso é crime contra a humanidade, é proibido em vários tratados internacionais. Os traficantes aparecem torturando no filme, mas o Estado não pode fazer isso!”. A propósito de um sobrinho adolescente que quebrava pratos no chão quando ficava nervoso, ele ponderou certa vez aos parentes assustados que o criticavam: “Isso é muito comum entre os gregos; e tem tribos indígenas em que as crianças, só por terapia, fazem isso com vasos que acabaram de ser feitos”; de outra que se revelava gay: “Parece que Joana D’Arc também foi”. Argumentos um pouco estranhos (“Como o Durval é culto!”, diziam alguns) e involuntariamente cômicos, tanto mais porque eram proferidos com toda a seriedade – e no entanto ensinavam a relativizar e tolerar. Ele sabia que muita matéria pedia consideração sob mais de um ponto de vista, mas também conhecia bem os princípios que não estavam em disputa, como aquele pelo qual a tortura era inadmissível em qualquer que fosse a circunstância. A ternura que vinha dele, mesmo quando parecia ouvir só seus botões, tinha a ver com essa tranquilidade inconsciente pela qual o respeito ao próximo e ao seu bem-estar prevalecia, e para isso era necessário às vezes relativizar e às vezes ser inflexível, o que ele era também com regras de trânsito, prestação de contas, conduta com colegas de trabalho (mesmo com os que lhe tinham puxado o tapete). Quando, num dos debates de candidatos a prefeito de São Paulo, Suplicy levou miniaturas de animais para ilustrar a fábula de Esopo e a similitude de sua posição com a da tartaruga, que lenta e atrasada (no caso, nas pesquisas de opinião) e sem condições portanto de se gabar de seu sucesso, acabava se dando melhor que o presunçoso coelho, todos na sala de casa riram porque ele nos dava mais uma ocasião para ver analogias entre seu raciocínio um pouco esquisito e tortuoso e o do meu pai.

Suplicy me parece ter essa mesma mistura de ternura, autismo e coragem, mas houve uma época em que podíamos eventualmente deparar com ele numa participação rápida em novela, programa de auditório, não sei se reality show e desfile carnavalesco também. Nisso se parecia a seu filho, Supla. Dos dois ouvi dizer mais de uma vez que eram exibidos. O que se dirigiria mais ainda ao pai por este não ser exatamente um trabalhador do show business. Talvez ele tivesse, sim, um gosto pelo espetáculo, ou o foi adquirindo à medida que a política se misturava a este, de modo que onde quer que aparecesse o parlamentar fazia a sua indefectível defesa da renda mínima, e certa vez creio que foi depois de cantar algum sucesso musical. Mas o caráter de suas aparições públicas fora da política partidária parece ter mudado um pouco nos últimos anos ou ter se concentrado mais em certas situações, análogas entre si. Ele se apresenta ou é chamado para ajudar a apagar incêndios. Não faz muito tempo, em 2017, lá foi ele para mais uma missão destinada a evitar uma hecatombe, embora fosse antes estar como personagem secundário de um sketch teatral curioso e com traços de alegoria, com o Rei da Vela vivo mas muito mais cruel. Numa reunião com Silvio Santos e Zé Celso presidida por um João Dória sempre em ascensão e prefeito por um breve momento, ele se solidarizava com o que era mais uma tentativa, ao longo de 37 anos, de dissuadir o mitológico magnata do SBT e ex-camelô a construir, agora não um centro de compras, mas um conjunto de torres residenciais no entorno do Teatro Oficina, um edifício tombado. Dória propôs uma solução salomônica, sugerindo parte da venda do terreno no qual poderia ser construído um shopping, como “os que existem na América” e têm “viés cultural” (realçava, como forma de dizer que a extinção da cultura do passado seria compensada de algum modo). Com o seu patuá de inglês empresarial na base e português como mero tecido de ligação, ele lembrava a figura do grã-fino metido à besta e à francesa em alguma comédia brasileira do século XIX, de Alencar ou Martins Pena: “[…] um projeto de Silvio Santos poderia viabilizar um funding [financiamento] e uma área de retail [varejo] em um pequeno mall”. Com mais candura, no entanto, que o demônio familiar de José de Alencar, o moleque negro que entre outras traquinagens fazia mofa desses estrangeirismos afetados da elite, Zé Celso pergunta: “O que é um mall?”, e Dória: “É um shopping menor”. A presença do teatro Oficina no backyard [quintal] do empreendimento criaria um asset [ativo] para os investidores”[i]. Mas isso é horroroso!, exclama Zé Celso numa veste que seu antagonista mais de uma vez chama de fantasia mexicana, e completa: “teatro em shopping é gaveta”. “Deixa de ser artista, não sonha!”, censura-o em outro momento o dono impaciente do Baú da Felicidade. A linguagem truculenta, uma das insígnias de Dória, hoje governador, era falada na ocasião por SIlvio, que podia compor o quadro de teatro de costumes como o judeu comerciante e usurário, tipo que não é raro no teatro nacional, embora herdado de fora, pois o fundo de antissemitismo ao longo dos séculos europeus legou também seus documentos de cultura. Mas a violência de suas ameaças e o cinismo sádico não o recomendavam bem ao papel de Shylock local, apertado demais para sua tendência violenta, agora francamente destampada. Mais ao fim da conversa ele mal conseguia disfarçar por uma brincadeira de mau gosto o quanto desejava a morte do diretor de teatro (e isso não era metalinguagem pirandelliana), e minutos antes já tinha sugerido transferir a Cracolândia para o terreno do Oficina. Nesse momento, Suplicy atuava mais propriamente como um bombeiro, atento à fogueira de extermínio que estavam dispostos a tocar os personagens principais, o facínora e o ridículo, este com perigosa subserviência provinciana às estranjas neoliberais.

Nos últimos anos e quanto mais seus cabelos embranquecem, tenho visto com certa frequência Suplicy se interpor entre policiais e o povo mais vulnerável. São muitas imagens em que ele aparece assim. Não sei se alguma vez pensou que o país lhe daria tanto trabalho na velhice, que ele teria tão pouca paz e que o corpo de antigo boxeador poderia um dia ser um trunfo nos enfrentamentos, cada vez mais físicos, que sua função o tem levado a suportar agora, o obrigando até a gestos um pouco suicidas conforme o contexto (lembro, por exemplo, quando, em 2016, se jogou no chão, de terno e tudo, para impedir uma reintegração de posse, tendo sido carregado à força pela polícia e encaminhado para uma delegacia). Dentro daquela singeleza quase autista dele e solidamente moral, ele vai reagindo às exigências do tempo, e com os reflexos do corpo talhado para responder a golpes quando ele nem pensava em ser político profissional. Na Câmara Municipal de São Paulo, no último mês de dezembro, ele dava grandes braçadas com a mulher que protegia presa ao peito enquanto a Guarda Metropolitana avançava decidida como uma onda, e por isso a partir de certo momento vi nele mais a figura de um salva-vidas que a de um boxeur ou bombeiro. Eles não pareciam estar ao abrigo de uma institucionalidade, e a truculência era tanta que foi preciso ter a desenvoltura física do militante jovem que dá a cara pra bater na rua e em movimento, embora estivessem entre as quatro paredes da representação política formal.

O fato é que o novo tempo do país o está levando a conhecer no corpo a vulnerabilidade dos mais vulneráveis, e a aliança a que seu abraço convida é também a dos náufragos, que, embora possam vir de classes sociais diferentes, se apertam no mesmo barco.

Priscila Figueiredo é crítica literária e professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP.

[i] Cf. Monica Bergamo de 27/10/2017, Folha de S.Paulo. Os parênteses com a tradução dos termos em inglês são da coluna.

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