“Vai ser interessante porque você nunca morre”


Há três anos, morria Hector Babenco, em 13 de julho de 2016. O último jantar com sua companheira Bárbara Paz, e suas últimas palavras, estão registradas no livro Mr.Babenco: solilóquio a dois sem um: Hector Babenco e Bárbara Paz, que acaba de ser lançado pela editora Nós. O nome da editora sintetiza o valor desse livro, resultado de conversas gravadas entre Hector e Bárbara, e escrito para nós, que temos a chance de lê-lo. Livro de amor, portanto, de laços que unem duas (ou mais) pessoas, e livro de despedida como diz Bárbara na forte carta de abertura: “Acordo e me viro para te abraçar. Só o que encontro é um HD ao meu lado. Você deixou gravadas todas as vozes-silêncio e imagens para minhas retinas. […] Com ele costuro você. [...] Seu humor, seu amor e nós”.

Apesar da dor da perda, é uma delícia ler suas 184 páginas, entremeadas com poemas e fotos. Na costura do texto, Babenco vai se tornando nosso amigo íntimo, como alguém que está falando ao pé de nosso ouvido. Aos poucos, a gente vai conhecendo a sua história pelos meandros mais labirínticos, seguindo seu traçado, e sua singularidade, acompanhando o seu “processo de construção de vida” (p.21): as aventuras de suas perambulações iniciais na França, a memória de datas, como um certo dia 25 de maio, que acaba levando-o a ser figurante em um filme dirigido por Orson Welles, na Espanha, até a decisão súbita do jovem adolescente de “ir numa rodoviária e comprar um bilhete para o Brasil”, e abandonar Mar del Plata , sua família e amigos: “Então eu vim num jogo escuro” (p.21). Primeiro, ele trabalha como camelô, depois torna-se campeão de vendas de túmulos no cemitério do Morumbi. Vislumbramos aqui o futuro diretor de cinema: Babenco apagava e acendia a luz para simular aos clientes a morte porvir, fazendo-os antever a dificuldade que deixariam aos familiares caso não comprassem, antes, seus túmulos.

O lusco-fusco reaparece em outras imagens, como a de ser judeu numa comunidade antissemita, buscando refúgio “nos escuros do livro que se abrem e te oferecem outras realidades”. Assim, a palavra e o cinema foram seus guias “como um lugar escuro em que a gente procura proteção e distração” (p.75).

“Eu ainda acho que o meu ser existencial é mais importante do que a profissão” (p.98). Uma das forças do livro está exatamente nessa costura entre a vida existencial e a criação de seus filmes, desde o primeiro, O rei da noite (1975), passando por Lucio Flavio (1977), Carandiru (2003), até Meu amigo hindu (2016). Acompanhamos com mais detalhes as histórias de criação de Coração Iluminado (1998), na parceria com Ricardo Piglia, o inconformismo que o levou a criar o fundamental Pixote (1980), e, logo depois, O beijo da Mulher aranha (1984), quando então descobre que tem um cancer linfático incurável. Por arte de Drauzio Varela, de 1984 a 1993, decidem por um tratamento não agressivo. Babenco filma Ironweed (1987) e depois Brincando nos campos do Senhor (1990), em plena Amazônia, enfrentando a doença. Em 1992-93, ele é informado de que não teria mais do que seis meses de vida, quando então consegue o transplante de medula em Seattle, em um tratamento, que levou cinco anos até a cura: “Estar filmando era estar vivendo um dia a mais” (p.89).

O livro condensa o momento de intensidade máxima de uma relação a dois diante da morte iminente, morte encenada para o filme, imaginada e discutida, até mesmo planejada, divertidamente, na seção em que Babenco sugere fingir sua morte para pedir aos amigos que escrevam o obituário: “A gente deveria chamar todos os amigos para morrer, ligar e dizer: Gente, eu vou morrer, passem por casa…” (p.147). Livro conciso de um vida rica em intensidade criativa, e rica em intensidade de amizades, desse brasileiro-judeu-argentino de Mar del Plata, que defendia o exílio como estado de espírito, e que avisava: “Eu não gosto do que o Brasil faz com o Brasil, sabe?” (p.85).

Sim. Sabemos.

Nos versos de Babenco: “mi vida busca/ un recuerdo para mi voz”. A voz gravada de Hector compõe o que podemos chamar de uma “escrita de ouvido”, no solilóquio a dois “sem um”, desse livro absolutamente comovente e importante, testemunho de uma vida que ampliou de maneira tão intensa a memória visual do cinema brasileiro e internacional. Seu relato em forma de conversa alcança uma leveza, uma suavidade, semelhante ao filme Amarcord, de Fellini, personagem-chave desse livro, como descobrimos ao final.

Elaborado durante a realização do documentário Alguém tem que ouvir o coração e dizer parou, que será lançado em outubro deste ano, o livro é um presente e torna presente essa vida que se busca: “Porque é a sua história e é ela que eu quero escutar agora,” diz Bárbara, companheira, e co-autora desses nós.

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Mr. Babenco: solilóquio a dois sem um

Hector Babenco e Bárbara Paz (org.)

São Paulo: Nós, 2019

Marília Librandi é professora de Literatura Brasileira. Leitora na Universidade de Princeton, e autora de Writing by Ear: Clarice Lispector and the Aural Novel (Escritas de Ouvido: Clarice Lispector e o romance aural, 2018]

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