Pandemílio, o horror verdadeiro de ficção


“Várias fitas de horror andaram sendo exibidas ultimamente e eu fui ver uma estória de gente enterrada viva. Que horror!”. Paulo Emílio Salles Gomes desdobra o horror no começo de seu artigo sobre o filme Enterrado vivo, de 1963. O gênero cinematográfico (“fitas de horror”) e a impressão causada pelo filme (“Que horror!”) apresentam vagamente a ocasião, o que é acentuado pela ambiguidade da segunda indicação. Afinal, Enterrado vivo é um filme medonho ou infame? Impossível dizer ao certo, pois essas são as únicas linhas dedicadas diretamente à obra em todo o texto. Já no título, Enterrado vivo perdia suas marcas de substantivo próprio (maiúscula, itálico) e se diluía em “Variação de enterrado vivo”. O lugar da palavra “variação”, enfim, sugere que o artigo não se ateria a seu tema, mas a outra coisa: “O que me conduziu à obsessão macabra da avenida Ipiranga em São Paulo foi certamente minha experiência modesta, e sobretudo não conclusiva, de enterrado vivo”. Por outro lado, o tema (o filme de horror-horrível) parece fornecer uma chave para a compreensão dessa experiência limite expressa no quase oxímoro enterrado vivo.

Como é possível ser portador de uma experiência dessas? Por meio de sua modesta e não conclusiva vivência no subsolo, Paulo Emílio nos propõe três aproximações. E embora todas remetam ao mesmo tema (o horror-horrível do filme) as variações são heterogêneas a ponto de impedir a seriedade (horror-humor do comentário). Além disso, os exemplos – um sonho, uma fuga e um equívoco – não parecem dar arrimo ao tema. Aliás, a própria escolha de um filme B de gênero comercial já impunha uma saída do território mais “sério” da crítica cinematográfica, o que pode ser validado pela ambiguidade do veredito (“Que horror!”). Mas estamos falando de uma crítica cinematográfica? É importante notar a esse respeito que o artigo foi publicado no jornal Brasil, urgente, onde Paulo Emílio dispunha de uma liberdade inédita em sua trajetória.

São três as experiências de enterrado vivo do crítico:

  1. Um sonho em 1945 (o fim do Estado Novo deixou em Paulo Emílio o travo da participação na campanha de Eduardo Gomes, lance inaugural da perniciosa UDN): dormindo num pequeno compartimento de trem durante a campanha presidencial, Paulo Emílio acordou todo o vagão com seu grito de enterrado vivo. A evocação ganha um sentido inesperadamente atual: “Só agora confesso, quase vinte anos depois. É verdade que as confissões sinceras são sempre tardias. Senão é exibicionismo”.

  2. Uma fuga em 1937: o autor participa da construção de um túnel que permite a fuga de um punhado de militantes políticos em São Paulo. Capítulo infame da história paulista, que funde involuntariamente humor e horror em denominações como “Presídio do Paraíso” ou “da Liberdade”. Num presídio de nome “gentil” como o Maria Zélia alguns detentos foram metralhados e outros deportados para a Espanha, onde seriam fuzilados. Ao horror das velhas histórias, soma-se uma memória mais epidérmica, dos trabalhos de perfuração do túnel: “De dia dormíamos um pouco, mas alguns não conseguiam, perseguidos por pesadelos de enterrado vivo”. A essa altura, Paulo Emílio faz uma observação que se refere indiretamente ao filme: “Vejo finalmente a utilidade da criação do vocábulo estória para distingui-lo de história”.

  3. Um equívoco sem data: em conversa com “uma espécie de discípulo” a respeito de sua claustrofobia e seu medo de ser enterrado vivo, Paulo Emílio se dá conta de que, para o interlocutor, claustrofobia remete ao medo de ser frade. O equívoco do discípulo, no entanto, também é sucedido por uma observação que não se prende ao fato, mas ao momento do texto: “Conforme era de se esperar esse discípulo é hoje colega e também escreve por aí”.

De uma anedota a outra, Paulo Emílio passa da confissão longamente adiada à liberação maldosa do riso. Entre os dois movimentos, a principal variação diz respeito à história ouvida e vivida dos horrores do Estado Novo. Enterrado vivo permite evocar o eco sinistro, transformando-o em discurso (não mais em grito). Mas até aqui o filme tem função instrumental, é ocasião para evocar as “verdadeiras” experiências, o que está de acordo com os preconceitos diante do cinema de gênero. Nas anedotas, a condição para o testemunho é o caráter não conclusivo da experiência; o filme, por sua vez, parece oferecer uma espécie de “ficção compensatória” (termo caro a Paulo Emílio), que permite dar vazão a essa antiga ruminação.

Há, entretanto, um elemento estrutural do texto que parte de Enterrado vivo, o humor. “Apesar da aparência este comentário tem lógica e até moral. Indica o papel das experiências vividas ou imaginadas na vinculação que estabelecemos com as fitas. Distingue a história da estória, o horror verdadeiro de ficção. O primeiro corrompe e imundece; o segundo areja e faz bem. Mesmo porque é inseparável do humor.” Aqui vemos que o tema esboçado nas primeiras linhas não apenas serve de plataforma para evocar o horror real do terrorismo de Estado gravado na memória e nos sonhos de Paulo Emílio, mas oferece ainda sua medida (a distinção entre história e estória) e a condição de sua dizibilidade (horror-humor). O humor é o elemento que estrutura toda a construção do texto (uma crítica de cinema sem filme), de modo a modificar a seriedade da evocação mesmo em suas passagens mais macabras. A seriedade permanece, mas é reposicionada e um novo compromisso entre horror e humor emerge. Conhecido por forçar a ausência de vírgulas em seus textos, Paulo Emílio formula de maneira involuntária esse compromisso: “O horror verdadeiro de ficção”.

O texto foi publicado, como foi dito, no jornal Brasil, urgente. A urgência sentida em nossos dias certamente não é a mesma de 1963 (Brasil Urgente se encontra, hoje, no campo oposto ao semanário engajado dos padres dominicanos). Mas talvez nos caiba buscar o sentido dessa reflexão num momento em que a experiência de enterrado vivo tende à norma. E munidos de uma vivência mais conclusiva a esse respeito, trata-se de olhar com mais contundência para o que Paulo Emílio apenas sugere: à experiência subjetiva de enterrado vivo corresponde uma atitude, a de quem enterra. Horror verdadeiro de ficção não designa, afinal, um modo de governar?

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Victor Santos Vigneron é professor. Atualmente pesquisa a obra de Paulo Emílio Salles Gomes em seu doutorado na FFLCH-USP.

foto: Michael Dantas.

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